Num dia brilhante nos apaixonamos.
Entregamo-nos a esse estranho sentimento que nos torna tão vulneráveis.
Ficamos à mercê de uma aceitação, de um retorno, da reciprocidade...
Cegos, tolos... Não sei ao certo.
E nesse momento, nessa troca de olhar, de poucas palavras, nos expomos,
abrimos nossa caixinha de segredos, gritamos aos quatro cantos do mundo
o quanto nos esforçamos para tentar encobrir nosso calcanhar de Aquiles
e de uma hora para outra experimentamos todo o conteúdo da caixa de Pandora...
Cólera, revolta, tristeza...
Estranho, estranho realmente.
Algo que seria tão prazeroso, tão especial, tão gratificante...
Ser tão cruel e doer tanto, demorar tanto para cicatrizar, tanto há de ser feito para superar.
Tanto que por vezes achamos não sermos capazes.
Tantas vezes nos entregamos e deixamos a dor nos atropelar feito um caminhão desenfreado.
Dor. Dor de amor.
E existe dor mais profunda?
Mais letal?
Mais venenosa?
Não passa...
O tempo passa, mas a ferida permanece aberta.
Exposta a todas as intempéries, ao passar do fugaz, efêmero tempo.
O que tornaria nosso coração mais amolecido, quase podre de tanto sentimento,
ser capaz de nos deixar frios, peito rijo, coração sedimentado...
E nós que só queríamos amar...
Dar e receber carinho...
Como pode ser assim?
Por quê?
Choramos. Nossos olhos não são capazes de suportar o peso das lágrimas...
Não é capaz de secar tanto sofrimento, tanto amor.
Afogamo-nos nesse mar intempestivo.
Calor.
Só queríamos, na verdade, um pouco de calor.
Calor humano, calor dos beijos sedentos de paixão, de desejo...
Queremos o conforto de um abraço sincero, de um toque apaixonado...
Mas a recusa e a indiferença agem contra nossa eterna busca...
Quanto mais buscamos essa tão sonhada emoção, mais difícil torna-se chegar a ela.
Mais distante coloca-se esse porto seguro...
Essa ilha de ilusão em meio à turbulência da vida...
Enlouquecidos nos rebaixamos, rastejamos, imploramos...
Mas o destino, as trilhas retorcidas da vida insistem em orgulhar-se de impossibilitar a felicidade...
Felicidade que se presente costuma ser tão efêmera quanto a vida, mas que nos faz tão bem...
Só um toque, um beijo, amor, sexo, carne...
Não sei ao certo.
Auto-afirmação...
Reconhecimento, egoísmo...
Como é difícil explicar, se fazer entender.
"É um sentimento que quase nos mata de tanto prazer por momentos e que, quando recusado, mata um pouco de nós eternamente...
Por um longo e minucioso tempo diverte com nossa pequenez e vulnerabilidade
como o mais cruel dos sádicos".
Mas quem ainda não sentiu isso, não poderá dizer ter vivido, não poderá jamais dizer ter existido.
Não será nem mesmo digno de morte.